Ok, o título foi de sacanagem. Pra te enganar. Quem lúcido acreditaria numa bobagem dessas? Depois do jornalista, ninguém é mais fodido sexualmente do que o executivo. Só que jornalistas trabalham “só” cinco horas por dia. E isso faz muita diferença. Dá tempo de aprender a jogar Playstation e não ser tão frustrado assim.
Executivos são por excelência a materialização do trabalho doente e devemos a eles todo o mal-estar de nosso tempo. Pois só há uma coisa pior que trabalhar: trabalhar demais, usando roupa demais. Por causa dessa turminha, agora todo mundo está impregnado com a pior das culpas e, para se livrar desse pecado, precisa ficar na empresa além do horário, o que já é muito tempo; absurdamente muito, levando em conta o que poderia ser uma vida plena: simplesmente ficar coçando o saco no sofá, assistindo à vida selvagem no Discovery, enquanto enchemos nossa pança com doces e sentimentos bondosos pelos animais da África. Tudo, enfim, para o que vale a pena ter uma mente, um bom sofá e, claro, um saco. Minha lembrança às mulheres.
Aliás, que a culpa pela decadência do mundo é do executivo (tudo bem, os religiosos contribuem com 45%) não é nenhum mistério para as pessoas esclarecidas. Mas não vivemos num mundo esclarecido. A vida na Terra demorou 4 bilhões de anos para construir um organismo tão complexo quanto o nosso e quando isso ocorre o nosso ideal de sucesso é ser um executivo? Roberto Justos é o melhor que a natureza pode fazer?
Já notaram como tem sempre um guru pilantra que adora antecipar as “tendências” futuras? Então, aqui vai uma tendência: um dia já fizemos um monte de bobagem em nome da igreja e de um Deus que adora nosso dinheiro. Em outros tempos matamos mais uma porção nas guerras em nome da nação. O ídolo atual é a corporação e o executivo e o Power Point são seus porta-vozes. A morte agora é mais sutil (alguém já participou de uma reunião até o fim sem se questionar metafisicamente por que há seres ao invés do nada? E ficar frustrado por não haver o nada?). Não conseguimos enforcar os padres (eles é que nos queimaram por séculos); nem pôr na masmorra os políticos e temo que com a cultura do executivo o ponto alto de nossa existência será mesmo o coffee break.
Só que não posso negar. Adoro o mundo corporativo. Só um ambiente assim para nos dar o melhor da piada pronta. O estresse, a estafa, os hinos e convenções motivacionais, aquele blábláblá enfadonho, o espírito de concorrência desleal entre companheiros, decotes concorrendo com barrigas enormes, enfim, tudo isso é o circo do alienado. E gostar de diversão é coisa de gente séria.
Mas tem mais. Entre as inúmeras inglórias de ser um executivo, eles ainda precisam conviver com o sexo, que seja na terceira pessoa. É claro que este é um texto para não executivos, para os que ainda têm chance, humor e dignidade. Porque os executivos mesmo não dão a mínima pro sexo. Pode até não parecer, mas no fundo executivos não comem ninguém. Simplesmente não dá tempo. Uma atividade anula a outra. E transar com a própria esposa uma vez no mês não conta porque não é sexo, é responsabilidade social. O fetiche pelas secretárias é coisa de peão. E confraternização em casas de strip é só mais um tipo de reunião.
Foi isso que perdeu o executivo: paz de espírito. Ah, mas o que é o sossego quando se tem uma Hilux 4x4 pra ir e voltar do trabalho? Como chegamos até isso? Como, dos valores simples da sobrevivência no passado, agora brigamos loucamente para crescer dentro de um esquema burocrático que em troca nos dá, nos dá... dá o quê? Ticket restaurante e curso de reciclagem? Assim como acontece na religião, o mundo corporativo é a ilusão moderna, é o ópio da mente especializada, é o novo consolo para o desespero, enfim, um mundo que se sustenta num razão tão frágil quanto a afirmação de que há um paraíso. O reino é aqui e o inferno também. Deve ser por isso que livros que relacionam monges e executivos vendem tanto. Cada um com a literatura que precisa para sobreviver.
Renato Cabral não é ninguém, não come ninguém e também não é amigo de ninguém numa grande corporação. Por isso está desempregado e ninguém o leva a sério.
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